Qual dos dois tem razão?

Estava devendo, algumas semanas já acumulando posts sobre 2666 de Bolaño.

Ultimamente tenho me dedicado a refletir sobre os paradoxos. Já diziam os chineses, a melhor forma de aprender e de refletir sobre a vida é se deparar com grandes paradoxos, aquelas situações nas quais, de tão absurdos, seu cérebro pára por momentos sem saber para onde direcionar o pensamento.

Aproveitem, tenho mais dois já identificados guardados para os próximos dias.

“-Eu, por exemplo, adoro a obra da Grosz – disse indicando os desenhos de Grosz pendurados na parede – mas conheço realmente sua obra? Suas histórias me fazem rir, em certos momentos creio que Grosz desenhou para que eu risse, por vezes o riso se transforma em gargalhada, e a gargalhada num ataque de hilaridade, mas uma vez conheci um crítico de arte que gostava de Grosz, é claro, mas que ficava deprimidíssimo quando via uma restrospectiva de sua obra ou por motivos profissionais tinha de estudar alguma tela ou desenho dele. E essas depressões ou esses períodos de tristeza costumavam durar semanas. Esse crítico de arte era amimgo meu, mas nunca havíamos tocado no tema Grosz. Uma vez porém, lhe contei o que acontecia comigo. No início ele não podia acreditar. Depois pôs-se a sacudir a cabeça de um lado para o outro. Depois olhou para mim de alto a baixo, como se não me conhecesse. Pensei que ele tinha enlouquecido. Rompeu sua amizade comigo para sempre. Faz pouco me contaram que ele ainda diz que eu não sei nada de Grosz e que meu gosto estético é igual ao de uma vaca. Bem, por mim pode dizer o que quiser. Eu rio com Grosz, ele se deprime com Grosz, mas quem realmente conhece Grosz?

– Suponhamos – disse a senhora Bubis – que neste momento batam na porta e apareça meu velho amigo, o crítico de arte. Ele senta aqui, no sofá, a meu lado, e um de vocês saca um desenho sem assinatura e nos garante que é de Grosz e que deseja vendê-lo. Olho o desenho, sorrio, tiro o meu talão de cheques e compro. O crítico de arte examina o desenho , não se deprime e tenta me fazer mudar de ideia. Para ele não é um desenho de Grosz. Para mim é um desenho de Grosz. Qual dos dois tem razão?

– Ou formulemos a história de outro modo. O senhor – disse a senhora Bubis apontando para Espinoza – saca um desenho sem assinatura e diz que  é de Grosz e tenta vendê-lo. Eu não rio, observo-o friamente, aprecio o traço, o pulso, a sátira, mas nada no desenho estimula meu deleite. O crítico de arte o observa cuidadosamente e, como é natural nele, fica deprimido e ato contínuo faz uma oferta, uma oferta que supera suas economias e que, se aceita, o mergulhará  em longas tardes de melancolia. Tento dissuadi-lo. Digo que o desenho me parece suspeito porque não me provoca o riso. O crítico me responde que já era hora de eu enxergar a obra de Grosz com olhos de adulto e me felicita. Qual dos dois tem razão?”, Roberto Bolaño, 2666

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Cartas de Amor, Rubem Alves

Já sei vai um quarto de Bolaño e estou com três posts atrasado, volto à carga sobre eles em breve, alguns paradoxos por discutir. Adoro paradoxos, tudo que bloqueia o pensamento nos faz crescer.

Enquanto isto, nas leituras paralelas me deparei com este texto singelo e sensível do Rubem Alves. Um abraço no vazio a todos que por aqui passarem.

“Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões. A mulher está só. Se há outras pessoas na casa, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela
escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem de ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: “Escrevo para que você fique sozinha …” É este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois foi da solidão que a carta nasceu. A carta de amor é o objeto que o amante faz para tornar suportável o seu abandono.

Olho para o céu. Vejo a Alfa Centauro. Os astrônomos me dizem que a estrela que agora vejo é a estrela que foi, há dois anos. Pois foi este o tempo que sua luz
levou para chegar até os meus olhos. O que eu vejo é o que não mais existe. E
será inútil que eu me pergunte: “Como será ela agora? Existirá ainda?”
Respostas a estas perguntas eu só vou conseguir daqui a dois anos, quando a sua
luz chegar até mim. A sua luz está sempre atrasada. Vejo sempre aquilo que já
foi … Nisto as cartas se parecem com as estrelas. A carta que uma mulher tem
nas mãos, que marca o seu momento de solidão, pertence a um momento que não existe mais. Ela nada diz sobre o presente do amante distante. Daí a sua dor. O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A amante que lê alonga os seus braços para um momento que não mais existe. A carta de amor é um abraçar do vazio.”

Rubem Alves, “Cartas de Amor”, O Retorno e Terno, pp.44-45.

2666, Roberto Bolaño, primeiras páginas

Depois de hesitar por alguns dias, começando definitivamente com Roberto Bolaño em 2666. Muitas expectativas adiante, tamanha a repercussão do livro, principalmente após o falecimento do autor.

Começou árduo, um tanto monótono, mas já na página 37 pintou a primeira reflexão. Como são mais de 1,000, o horizonte se mostra com céu claro e bem otimista. Muito em breve eu volto com a primeira provocação.

Julgar o próximo é confrontar-se no espelho

O segundo livro do ano começou-me surpreendente. O Aleph, de Borges, é incrivelmente sintético, desafiador e ao mesmo tempo apaixonante. Os contos são curtos e densos, os detalhes estão em cada palavra e como são dispostas ao longo do texto. Qualquer perda de atenção nos faz voltar ao início e recomeçar. Ser rápido aqui é como passar por aquelas vilas pequenas do interior a toda velocidade e não prestar atenção aos detalhes.

No conto Deutsches Requiem, Borges retrata as reflexões de vida de um ex-nazista que se defronta com os conflitos de seus valores e tenta humanamente justificar as atrocidades. O que é humano? O que nos define? O que faz um homem? E como julgar o próximo sem pisar seus próprios passos? É possível julgar alguém a não ser nós mesmos?

“… todos os fatores que podem ocorrer a um homem, desde o instante de seu nascimento até o de sua morte, foram prefixados por ele. Assim, toda negligência é deliberada, todo encontro casual um encontro marcado, todo fracasso uma misteriosa vitória, toda morte um suicídio. Não há consolo mais hábil que o pensamento segundo o qual escolhemos nossas infelicidades; essa teleologia individual nos revela uma ordem secreta e prodigiosamente nos confunde com a divindade. Que ignorado propósito me fez procurar naquele entardecer aquelas balas e aquela mutilação? Não o temor da guerra, eu sabia; algo mais profundo. Afinal acreditei entender. Morrer por uma religião é mais simples que vivê-la na plenitude; batalhar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um ato é menos que todas as horas de um homem.” Jorge Luis Borges, Deutsches Requiem, O Aleph.

Amargo ecológico, o Café

Falta pouco agora para terminar, e as relfexões desta vez vêm do capítulo sobre a formação do povo caipira e seus impactos para o Brasil atual.

Dentre os caipiras, a atividade econômica predominante foi o café, este grão precioso, que dominou o mundo e deu origem a uma varidade infinita de bebidas, sabores e lugares renomados. Este grão que criou tendências, em diferentes línguas, e tornou a vida urbana diferente, sendo servido na beira da esquina, em bistrôs requintados, em restaurantes de todos os tipos, no café da manhã para abrir um novo dia, ao final do almoço, numa roda de amigos jogando papo fora.

Este grão que se tornou cosmopolita e que ganhou a vida lá fora, tornando, por exemplo, os cafés parisienses famosos nos quatro cantos do planeta, teve sua expansão iniciando-se grande parte por aqui, na região sudeste, saindo do Espírito Santo, passando pelo Rio de Janeiro e pelo sul de Minas Gerais, conquistando posteriormente o interior de São Paulo e do Paraná.

Apaixonado que sou pela bebida e também por ecologia, não devo conseguir mudar de hábitos e deixar de apreciá-lo, mas dói muito ver em relato tão sintético, o estrago, que seu cultivo sem critérios quaisquer por uma pseudo-nobreza paulistana preocupada somente com seu próprio nariz, foi capaz de fazer há mais de século, não só na nossa economia como também na degradação completa de vastos territórios e da mata atlântica. Cada xícara que entorna, uma árvore que cai.

“O café não se alastra, porém, sobre novas terras de mata, mantendo as já conquistadas. Sua retaguarda é sempre o deserto e neste fato se encontra o motor real do seu impulso itinerante. Sendo a terra o fator mais abundante e relativamente menos oneroso da produção cafeeira, sobre ela é que recai, sempre que possível, a poupança empresarial. Derruba-se a floresta virgem e plantam-se novos cafezais sem quaisquer cuidados culturais que importassem em ônus para o empresário, usando e desgastando a terra num primitivismo tecnológico que quase transformava a agricultura num extrativismo. Assim é que só em zonas de excepcional fertilidade do solo, os cafezais se fixam realmente como uma cultura permanente. O procedimento comum foi sempre abrir lavouras esperando obter safras por uma década ou menos, até que uma geada destruísse a plantação ou que o cafezal envelhecese por desgaste do solo”, Darcy Ribeiro.

Antonio Conselheiro às avessas

Chegando ao fim, O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, vai deixar saudades de boas relfexões, sobre nosso País e sobre nosso povo. Mas a realidade é que estou de fato ansioso para começar a ler outra coisa. Estou para decidir ainda entre o 2666 do aclamando Roberto Bolaño ou o Aleph, de Jorge Luis Borges. Não confunda com o título copiado por Paulo Coelho em obra homônima.

Na última semana estive passando pelos subtipos brasileiros, por assim dizer, que retratam as características básicas e diferenciadoras que ajudam a explicar porque somos o que somos. Dentre um destes grupos, os sertanejos, é indissociável em sua gênese a revolta de Canudos, onde Antonio Conselheiro pode mobilizar uma massa significativa de populares em torno de um novo messianismo liberatador, que no fim significou um dos episódios mais sangrentos e vexatórios de nossa história republicana.

Indiscutível argumentar contra os avanços sociais de nosso País nos últimos 20 anos, inicado pela estabilização monetária e pela continuidade desta, somada à uma ótima conjuntura econômica mundial, que nos trouxe ilesos até aqui. Mas inevitável associar que nosso ex-presidente Lula, por muitos julgado como um ser iletrado e ignóbil, de três uma: ou leu Darcy Ribeiro antes de priorizar violentamente o Bolsa Família, ou possuía de fato bons assessores, ou é como se julga, um predestinado divino, ao traçar estratégia tão cativante para as massas sertanejas e tê-los à sua disposição como um novo curral eleitoral.

“É de assinar, porém, que o despertar da consiência sertaneja para sua própria causa não assume, ainda, uma atitude de rebeldia generalizada. Mas alcança já uma postura de inconformidade que contrasta coma resignação tradicional. Não chega a explicar a vida social em termos realistas de interesse em choque e, raramente, põe em dúvida as representações sagradas do mundo que explicam  pela sorte e pela ajuda divina a riqueza dos ricos e a pobreza dos pobres. Sua inconformidade revela-se, principalmente, por atitudes de fuga: a idealização do passado como uma idade mirífica em que o vaqueiro era pago em reses e em que as terras eram livres para quem as quisesse ocupar e trabalhar; a idealização da vida em outras regiões do país, onde a vida é fácil e um homem, com pouco esforço, pode comer fartamente e viver com dignidade. E a esperança de ver surgir um novo paternalismo governamental, que seja mais sensível à sua causa do que aos interesses fazendeiros. Esses atitudes, porém, antes conduzem ao abandono do sertão por outras paisagens rurais e pelas cidades e a um redentorismo político do que a uma pressão ativa pela reordenação da sociedade sertaneja”, Darcy Ribeiro.

Uma Shoah brasileira

Este deve ser se não o último, um dos últimos posts sobre os paralelismos entre a perfeita descrição da formação do povo brasileiro por Darcy Ribeiro e nossa realidade atual. Faltam poucas páginas para terminar a leitura de obra tão magistral.

O capítulo atual em que estou mais as recentes notícias, sejam de economia ou das tragédias vividas por alguns municípios com as últimas chuvas de verão, fazem-me ter a certeza de que erguemos nosso País e hoje nele vivemos sobre as sombras de uma grande Shoah à Osvaldo Aranha. Não confundir o nobre diplomata, que colocou o Brasil em posição antagônica à Alemanha na Segunda Grande Guerra e um fervoroso apoiador da fundação do estado israelense, com o famoso filé local.  Shoah brasileiríssima e com apoio primordial da velha corte portuguesa.

Duvida? Então vamos aos fatos. Em primeiro lugar, há séculos exterminamos milhões de índios e milhares de negros para fundar as bases do País que até hoje continua uma nação mercantil que gera riqueza para outrem. Já dizia o padre Antonio Vieira, em 1652:

“[…] e toda aquela gente se acabou ou nós a acabamos; em pouco mais de trinta anos […] eram mortos dos ditos índios mais de dois milhões […]”.

Estas eram as estatísticas de alguém que viveu a própria época e há quase quatro séculos. Os números mais apurados hoje apontam para um extermínio superior a 4 milhões de indivíduos sob a conivência do estado. Este processo histórico e econômico teve vários ciclos ao longo de nosso desenvolvimento, dentre eles duas páginas muito ilustrativas que podem ser obtidas investigando-se os ciclos da borracha na Amazônia. Já no século XIX, Darcy Ribeiro observa:

“Desembarcados nos dois portos, Belém e Manaus, os sertanejos eram repartidos entre os patrões que já estavam à sua espera. Cada lote, suprido de armas e munição para caça e defesa contra o índio, de roupas e de singelo instrumental do trabalho extrativo, era conduzido rio acima e floresta adentro, aos longínquos seringais. Cada trabalhador ingressava no serviço com sua feira e seu débito, que aumentaria cada vez mais com os suprimentos de alimentação, de remédios, de roupas providas pelo barracão. Dificilmente um seringueiro consegue saldar essa conta que, habilmente manipulada, o mantém em regime de trabalho de servidão virtual enquanto possa resistir às terríveis condições de vida a que é submetido”.

Mais recentemente, podemos observar que a exploração humana continua sendo parte integral de nosso modo de ser e de nossa sociedade. Na Segunda Grande Guerra, um novo surto econômico da borracha nos fornece mais um relato desalentador sobre nossa origem e futuro. O mesmo Darcy Ribeiro observa:

“Estima-se que essa nova migração tenha envolvido de 30 a 50 mil trabalhadores. Efetivamente, as perdas brasileiras na chamada “guerra da borracha” – tanto pela miséria a que foram lançados os trabalhadores como pela morte consequente dela e do seu abandono nos seringais após o conflito – foram muito superiores às baixas sofridas pelas tropas brasileiras na Itália”.

E algo que poderia estar já há 60 anos em um passado quase remoto não pode adormecer em nossa memória. Nossas discussões de futuro continuam embasadas na produção de riqueza para o exterior com um desleixo enorme por nossa gente tão forte.

Depois da China, é a vez da Índia. Um novo gigante asiático despertou seu apetite pelas matérias-primas brasileiras, provocando temores de que se repita uma relação comercial “colonial” de exportação de commodities e importação de produtos manufatorados. Raquel Landim, O Estado de São Paulo, 16 de janeiro de 2011.